Entenda a doença

Dependência química

Um grave problema de saúde pública: os efeitos das substâncias psicoativas atingem o corpo e a mente do usuário, que busca o consumo frequente e compulsivo para evitar os sintomas de abstinência.

Características

Uma doença primária, progressiva e crônica

Primária

Não deriva de outra patologia: desenvolve-se a partir do uso abusivo de alguma substância psicoativa.

Progressiva

O organismo desenvolve tolerância crescente, exigindo doses maiores para obter satisfação. A progressão é previsível e pode chegar a estados graves sem tratamento adequado.

Crônica

É permanente no corpo humano e apresenta vulnerabilidade a recaídas — o álcool, por exemplo, está disponível em qualquer estabelecimento comercial.

Classificação

Os tipos de drogas

A classificação básica das drogas está dividida, de acordo com os efeitos que produzem no organismo, em três grupos:

Depressoras do sistema nervoso central

Reduzem a atividade do cérebro, deixando a pessoa mais lenta e desinteressada. As substâncias mais comuns são álcool, ansiolíticos (Valium, Lexotan) e opiáceos (ópio, morfina, codeína).

Estimulantes do sistema nervoso central

Aumentam a atividade cerebral, deixando a pessoa mais elétrica e sem sono. As mais comuns são cafeína, nicotina, cocaína e crack.

Deturpadoras do sistema nervoso central

Modificam qualitativamente a atividade do cérebro, distorcendo a percepção. São chamadas alucinógenas ou psicodélicas — as mais conhecidas são maconha, cogumelos e LSD-25.

Diagnóstico

Como a doença é identificada

O diagnóstico da dependência química requer a presença de pelo menos três dos sinais abaixo ao longo de um período de um ano, resultando em consumo frequente e compulsivo para evitar os sintomas de abstinência, acompanhado de problemas físicos, psicológicos e sociais.

Tolerância

Necessidade de quantidades progressivamente maiores da substância para obter o efeito desejado, com acentuada redução do efeito quando se mantém a mesma dose.

Abstinência

Surgimento da síndrome característica da substância — e uso da mesma droga (ou de outra relacionada) para aliviar ou evitar esses sintomas.

Perda de controle

A substância é consumida com frequência em quantidades maiores ou por período mais longo do que o pretendido.

Tentativas frustradas de parar

Desejo persistente ou esforços malsucedidos de reduzir o uso, com muito tempo gasto para obter a droga, consumi-la ou se recuperar dos efeitos.

Afastamento da vida social

Atividades sociais, ocupacionais ou recreativas abandonadas ou reduzidas em virtude do uso.

Uso apesar dos danos

Consumo mantido mesmo com a consciência de um problema físico ou psicológico persistente causado ou agravado pela substância.

Consequências no cotidiano

Acidentes, brigas, perda de compromissos, negligência com os filhos ou com os afazeres domésticos associados ao consumo.

Situações de risco

Uso em contextos perigosos, como dirigir ou operar máquinas, ou detenção por porte e conduta desordeira relacionada à droga.

O que a CID-10 também considera

  • • É preciso reconhecer o dano real causado à saúde física e mental do usuário.
  • • A reprovação de um padrão de uso por outra pessoa ou pela cultura, ou consequências socialmente negativas como prisão ou briga, não são, por si só, evidência de uso nocivo.
  • • A intoxicação aguda ou a ressaca não são evidências suficientes de dano à saúde para caracterizar uso nocivo.
  • • O uso nocivo não deve ser diagnosticado quando já existe síndrome de dependência, transtorno psicótico ou outro transtorno específico relacionado a álcool e drogas.

Os graus da doença

O conceito atual de dependência química, além de trazer critérios diagnósticos claros, aponta para diferentes graus:

Uso

Consumo esporádico ou episódico, sem consequências de nenhuma ordem.

Abuso

Consumo associado a algum prejuízo físico, psíquico, familiar ou social.

Dependência

Consumo sem controle, relacionado a graves problemas em diversas áreas da vida.

Este conteúdo é informativo e não substitui uma avaliação profissional. Nossa equipe realiza a avaliação individual de cada caso antes de indicar o tratamento.

Histórico

Do uso antigo ao reconhecimento como doença

O conceito de dependência química é recente se comparado ao uso de substâncias psicoativas pela humanidade. Relatos da Antiguidade, no Egito e na Grécia, já descreviam o uso nocivo de álcool. Entre os incas, o hábito de mascar folhas de coca ajudava as classes mais baixas a tolerarem fome e fadiga: o consumo era pautado por questões de subsistência.

A partir de meados do século 20, a dependência química passou a ser vista como síndrome, ainda sem considerar os aspectos psicossociais — focava-se apenas em questões biológicas, como o delirium tremens e complicações clínicas.

Em 1951, a Organização Mundial da Saúde identificou o alcoolismo como um processo doentio complexo. Antes do fim da década de 1960, as principais organizações médicas americanas já reconheciam o alcoolismo como doença.

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